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Bastidores

E pensar que eu quase não fui

By Ana Carms• November 03, 2026• 4 min read
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E pensar que eu quase não fui
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“Só mais um pouquinho.”

A gente já está chamando pra sair da água, mas ela quer ficar.

Uns dias antes, era quem mais perguntava sobre os bichos do Rio Negro. Olhava aquela água escura, tentava enxergar alguma coisa embaixo e avisava que não ia entrar.

Eu entendo. A imaginação da gente não costuma colocar um peixinho simpático ali e encerrar o assunto. 😂

Mas os dias foram passando. Ela conversou, entendeu os cuidados, foi ganhando confiança e resolveu tentar.

Agora quer mais cinco minutos.

Tu lembra de alguma coisa assim? Que começou com um “de jeito nenhum” e terminou com vontade de repetir?

Grupo aproveitando o banho no Rio Negro

Antes das Dolomitas, teve um teleférico

Nas Dolomitas, uma viajante que tinha medo de altura fez uma via ferrata com a gente, um percurso na montanha com estruturas fixas e equipamentos específicos de segurança.

Ela me contou que, numa viagem anterior ao Rio de Janeiro, tinha deixado de ir num teleférico com a família por causa desse medo.

Guardei esse detalhe.

A mesma pessoa que tinha ficado de fora daquele passeio agora tinha vivido aquela experiência nas montanhas. Fico imaginando a conversa na volta, mostrando as fotos pra família.

Quem visse as imagens sem conhecer a história talvez pensasse que ela sempre tinha feito esse tipo de coisa. Eu lembrava do teleférico.

Não sei se ela voltou sem medo de altura. Mas agora tinha outra história pra contar sobre si.

Gosto disso porque a gente vai se acostumando com algumas definições: “eu não consigo”, “não tenho coragem”, “isso não é pra mim”. E às vezes continua respondendo com uma experiência de anos atrás, sem perceber que já tem vontade de tentar de novo.

Viajante nas Dolomitas

Eu também queria saber antes se ia dar certo

Antes de me jogar no mundo, eu pensava muito nisso.

Tinha vontade de conhecer lugares, viajar, fazer acontecer. Ao mesmo tempo, vinham as dúvidas. E se eu não conseguisse? Se desse errado? Se estivesse fazendo uma escolha ruim?

Olhando pra minha vida naquele momento, eu sentia que não tinha tanto a perder. Ainda assim, queria alguma certeza antes de ir.

Hoje é fácil contar porque já sei a continuação. Naquela época, eu precisava decidir sem saber.

Fui. Conheci lugares no Brasil, viajei pra fora, construí a agência. Vieram responsabilidades, dificuldades e muita coisa que precisei aprender fazendo. Continuo aprendendo.

Mas o que mais me emociona quando lembro daquele começo é pensar nas pessoas que eu ainda não conhecia.

Gente de quem hoje gosto tanto e que eu nem sabia que estava no mundo. Penso também nos lugares que passaram a me dar saudade. Nas histórias que já contei tantas vezes, mas que, naquele momento, ainda nem tinham acontecido.

Eu estava preocupada se ia conseguir. E tinha tudo isso pela frente.

Queria sentar um pouquinho com aquela Ana. Mostrar umas fotos, contar quem são aquelas pessoas, explicar por que estou rindo.

Queria que ela pudesse ver um pouquinho.

Essa parte a gente não consegue imaginar

Pra pensar no que pode dar errado, a cabeça encontra assunto rapidinho.

Mas como imaginar a amizade que vai fazer com alguém que ainda não conhece? Uma conversa que vai continuar lembrando quando voltar pra casa? O quanto vai gostar de uma coisa que hoje ainda dá receio?

Eu podia pensar nos lugares que queria conhecer. Mas não tinha como antecipar tudo que viveria neles.

Talvez tu esteja lembrando de alguma coisa agora. Uma viagem pra qual foi cheia de dúvidas. Uma experiência que achou que não conseguiria fazer. Um convite que quase recusou e que acabou rendendo uma história que adora contar.

Se tiver uma foto, olha de novo depois.

Tu provavelmente sabe alguma coisa sobre aquele momento que ninguém perceberia só pela imagem. O receio antes de sair, as perguntas, a vontade de desistir. Quem ficou por perto, quem te ajudou.

É bonito olhar e reconhecer o caminho que fez até estar ali.

Ainda bem que eu fui

Continuo tendo medos. Tem coisas para as quais preciso de mais tempo, preparo, ajuda. E tem outras que decido não fazer.

Mas gosto de lembrar das vezes em que me surpreendi. Quando uma vontade que parecia distante virou uma experiência minha, com detalhes que agora consigo contar.

Penso na viajante das Dolomitas. Em mim, antes de conhecer tantos lugares. E naquela pessoa dentro do Rio Negro, pedindo pra ficar.

Ela já não está ocupada só com o que pode ter na água. Está aproveitando o banho.

Talvez seja por isso que eu goste tanto daquele “só mais um pouquinho”. Quem diria, uns dias antes, que o difícil ia ser querer sair?

Me conta: o que tu quase deixou de viver e hoje pensa “ainda bem que eu fui”? 🤍

Ah, e obrigada por ficar até aqui. Te vejo na próxima.

Bora viver.

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